Importante votação da FIT na Argentina. Tomemos o exemplo e construamos uma frente de esquerda dos trabalhadores no Brasil

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[Por Santiago Marimbondo]

No domingo dia 22 de outubro aconteceram as eleições legislativas na Argentina, tanto na esfera nacional quanto regional. Essa eleição foi marco de uma importante intervenção da esquerda classista entre nossos vizinhos, a FIT (frente de esquerda dos trabalhadores, na sigla em espanhol) conseguindo uma importante votação, ultrapassando 1 milhão e duzentos mil votos, mais de 5% do eleitorado argentino.

A repercussão dessa importante intervenção de uma esquerda classista na Argentina, no entanto, foi altamente contraditória em nosso país. O sectarismo dos grupos de esquerda brasileiros prevaleceu sobre uma análise conseqüente, científica e crítica desse importante fenômeno, que tem grande significado internacional, com suas vitórias e seus importantes limites. Por um lado, alguns grupos da esquerda brasileira, como MAIS e PSTU, ficaram silenciosos, num silêncio efetivamente ensurdecedor (grupos da esquerda brasileira que em geral costumam comemorar qualquer avanço da esquerda neo-reformista, que não se referencia em nada na classe operária, como grande vitória); e por outro lado o MRT, numa comemoração auto-proclamatória estéril do mesmo fenômeno, não buscando nem superficialmente tirar suas lições para construir uma frente de esquerda classista no Brasil, algo essencial para enfrentar os ataques que tem imposto a patronal à nossa classe e preparar uma resposta alternativa dos trabalhadores à crise.

Esse pequeno artigo busca ser uma tentativa de superar esses dois pólos extremos de sectarismo mútuo. Certamente é um grande problema que a tarefa de tentar tirar as lições do fenômeno argentino para buscar influir na realidade brasileira recaia sobre um militante independente, em grande isolamento político. Contudo, as vicissitudes da luta de classes e suas situações específicas são parte das condições objetivas não escolhidas por nós que nos colocamos a tarefa de de forma consciente buscar fazer história.

 

As eleições argentinas e correlação de forças entre as classes no país    

A eleição no país vizinho marca a abertura de uma nova situação na luta de classes entre os argentinos. Se por um lado a FIT conquistou uma importante votação, mostrando o avanço de uma consciência classista entre os trabalhadores argentinos e a influência da classe operária sobre os setores médios da população, é ela ainda uma força minoritária frente ao conjunto do eleitorado.

O grande vencedor das eleições argentinas foi o partido Cambiemos (mudemos, em espanhol) do presidente direitista Maurício Macri. Com um discurso de bom gestor, afastado da política, Macri pouco após a definição dos resultados já anunciou que vai utilizar a posição de força conquistada nas eleições para avançar nos ataques aos direitos da classe trabalhadora e do conjunto da população, num movimento análogo ao das contra-reformas realizadas no Brasil.

Macri e Cambiemos buscam construir sua posição hegemônica, que lhes permita desferir esses ataques, em torno do discurso da gestão, um discurso tecnicista, que busca mostrar as contra-reformas não como necessidade política, “ideológica”, mas como uma necessidade técnica, neutra, discurso que vêem ensaiando as classes dominantes no sub-continente sul-americano no último período, como temos visto no Brasil.

Esse discurso ganha certo respaldo como expressão distorcida da “bronca” popular em relação a gestão populista de Cristina Kirchner, presidente da Argentina antes de Macri. O kirchnerismo, forma particular de manifestação do fenômeno peronista entre nossos vizinhos no começo do século, foi parte fundamental da recomposição da hegemonia burguesa que tinha sido abalada com as jornadas revolucionárias no país em 2001, onde, fruto das lutas populares, foram derrubados 5 presidentes em uma semana.

Gozando de uma conjuntura econômica propícia os governos kirchneristas, tanto de Nestor quanto de Cristina, conseguiram manobrar entre as contradições e conflitos sociais construindo um governo de conciliação de classes capaz de, a partir de algumas concessões parciais às classes subalternas, recompor uma relação orgânica relativa entre a classe operária argentina e demais grupos oprimidos e os aparatos e instituições que garantem a hegemonia capitalista no país (não de maneira linear, contudo, pois o mesmo fenômeno que permitiu a existência do kirchnerismo fez com que se fortalecesse a esquerda classista, o sindicalismo de base, etc, que hoje se expressam na FIT).

O fim do ciclo das commodities solapou as bases do kirchnerismo (assim como dos outros fenômenos pós-neoliberais no sub-continente) criando a possibilidade do fortalecimento tanto de mediações à direita, como Cambiemos, quanto à esquerda, como a FIT. É essa a situação que tende a se abrir no próximo período no país vizinho, uma situação de maior polarização, com uma direita fortalecida super-estruturalmente e pressionada a atacar, mas com uma esquerda classista também bem posicionada para resistir e preparar possíveis contra-ataques.

 

Uma apreensão crítica da FIT, os limites dados por suas direções centristas

Uma apreensão crítica da FIT é, no entanto, elemento essencial para que possamos tirar as lições desse importante fenômeno. Há nessa frente um importantíssimo fator que faz com que ela deva ser comemorada por todos aqueles que se reivindicam revolucionários, o fato de ela ser uma frente classista, baseada na independência de classe dos trabalhadores em relação a qualquer organização ou partido patronal ou pequeno-burguês,com uma clara referência a uma base social proletária, bastante diferente dos fenômenos neo-reformistas (como Syriza e Podemos) que são os fenômenos que a esquerda brasileira mais costuma comemorar.

Nesse sentido, a principal lição que nos lega a FIT é a de que é possível uma esquerda classista conseguir influência massiva, ser um fator, mesmo que minoritário, na realidade política de um país “ocidental” na contemporaneidade;  diferente do que dizem os grupos que abandonaram a referência na classe operária e se “encantam” por qualquer fenômeno neo-reformista, algo tão comum na esquerda brasileira.

No entanto esse reconhecimento não deve apagar as críticas aos limites centristas impostos pelos grupos que dirigem essa frente (PO, PTS, IS). Esses limites se expressam numa adaptação a democracia burguesa, a ideia de que são possíveis transformações estruturais por via parlamentar, um privilegiar a disputa eleitoral (terreno eminentemente do inimigo de classe) como espaço para a luta por uma consciência política, não apenas sindical, na classe operária.

Podemos ver esses limites desde a fundação da FIT; a criação da frente não foi fruto de uma política consciente de nenhum dos grupos que a compõe, mas na verdade foi uma imposição do estado burguês, que por via das PASO (forma de eleição preliminar existente na Argentina) queria proscrever a esquerda classista no país; ou seja, a FIT não foi criada como forma de busca consciente por uma frente dos trabalhadores para lutar contra os ataques da patronal e seus governos, mas uma frente relativamente oportunista, imposta pela patronal para que os partidos que a compõe não fossem proscritos, dadas as leis mais restritivas impostas pelo estado.

Além dos muitos outros fatores que poderíamos expor para mostrar esse caráter centrista (o programa defendido pela frente, cuja uma das principais consignas historicamente é “que todo político ganhe como uma professora”, programa correto, mas bastante limitado; o caráter pequeno-burguês dos principais candidatos e referentes da FIT, como Nicolas Del Cano, Myriam Bergman, por exemplo) um fator de justificativa teórica para a existência da frente se destaca. Podemos ver em vários materiais do PTS e de sua sucursal brasileira, o MRT, a ideia de que disputar politicamente os trabalhadores é disputá-los eleitoralmente.

O erro teórico aqui já tem profundas conseqüências práticas e tende a ter ainda maiores. Passa-se a se ter a ideia dentro dos grupos da FT que a disputa política é igual a disputa eleitoral, que para superar a consciência “trade-unionista”, sindicalista espontânea, da classe operária o espaço privilegiado é o espaço eleitoral. Isso já tem conseqüências no PTS, por exemplo, mas as conseqüências para as sessões menores desse grupo, como o MRT brasileiro, menos inseridos na classe operária, são devastadoras.

Não por acaso o grupo passa a ser cada vez mais uma pequena seita super-estrutural, que gira em torno de um jornal digital e de tentar lançar candidatos pretensamente “anti-capitalistas”, sem praticamente nenhuma inserção estrutural no movimento operário ou mesmo no movimento estudantil (notemos que esse pequeno grupo dirige apenas uma única entidade estudantil em todo país, o CA da educação USP, e é direção minoritária em um único sindicato, o SINTUSP, sindicato que por conta de uma política errada e pouco combativa de sua direção, inclusive o MRT, sofreu importantíssima derrota no começo desse ano, tendo cada vez menor capacidade de mobilizar sua base).

 

Tiremos as lições e construamos uma frente de esquerda classista no país

O exemplo argentino deve ser a base, a partir de uma análise crítica, para que possamos construir uma frente classista em nosso país, para resistir aos ataques da patronal e buscar esboçar uma alternativa de nossa classe à crise econômica, política e social por que passamos. É impressionante como mesmo frente a tremenda polarização social que atravessa o Brasil a esquerda não tenha conseguido dar um único passo a frente para superar sua condição de marginalidade; isso se deve, certamente, ao espírito de seita que permeia as organizações, que pensam apenas em sua construção, não junto e em relação orgânica com o movimento de conjunto, mas em contraposição a ele, como se a construção de um partido revolucionário e classista pudesse se dar de forma independente do movimento de conjunto, com as múltiplas organizações que o compõe.

É essencial para a construção de um partido revolucionário real que o grupo que pretende ocupar esse papel busque ser o vetor da construção de organismos de frente única, onde todos os setores do movimento dos trabalhadores possam se expressar; será no debate fraterno e sério de idéias e alternativas nas lutas concretas que o setor mais decidido, consciente e conseqüente irá despontar como alternativa dirigente real para o setor majoritário da vanguarda de nossa classe.

O único argumento aparentemente legítimo que poderia ser levantado contra a construção tão necessária de uma frente assim em nosso país são os diferentes balanços das organizações de esquerda em relação ao impeachment no ano passado. Poderia aparecer que visões tão distintas como uma que caracteriza o impeachment como golpe, e outra que o caracteriza como o começo do “fora todos” (MRT, MAIS de um lado e PSTU do outro, por exemplo) não poderiam conviver numa mesma frente.

Contudo, esse é um argumento equivocado; certamente uma frente como essa não deve servir para apagar os debates entre os grupos, numa superficial ideia de “unidade da esquerda’’ em abstrato. No entanto, nesses debates deve se encontrar o mínimo denominador comum que permite uma luta unitária contra os ataques da patronal. Se é evidente que as análises sobre o impeachment têm importância e os debates sobre a questão devem ser aprofundados devemos pensar: as análises distintas sobre o impeachment impedem uma ação comum na luta contra os ataques da patronal? É só colocar a questão de forma correta para vermos que não.

Essa frente que deve se formar no Brasil não deve ter caráter predominantemente eleitoral, diferente da frente argentina. Deve se expressar primeiramente na luta contra as reformas e por uma efetiva greve geral que barre os ataques, para apenas depois, caso ela se mostre ferramenta concreta na luta contra esses ataques, se expressar eleitoralmente, no ano que vem.

Os elementos que devem dar base para sua formação devem ser os elementos defensivos tão essenciais nesse momento para a luta dos trabalhadores: a luta independente do petismo contra a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a PEC do fim do mundo, e o avanço superestrutural da direita. A frente deve ser baseada numa total liberdade de debate e de crítica interna entre os grupos e partidos que a compõe. Nesse sentido, além desse programa mínimo defensivo os revolucionários dentro dela deveriam defender um programa transitório, revolucionário, para o combate a crise, que culminasse na defesa de um governo operário e popular, como uma alternativa as respostas dos patrões que visam impor os ataques à nossa classe. Contudo, esse programa transitório e revolucionário não deve ser um ultimato aos grupos centristas, o que impediria a formação da frente.

O chamado a formação dessa frente deve ser endereçado a todos os grupos que se referenciam na classe operária como sujeito social fundamental na luta contra as reformas e o avanço da direita, de forma independente do petismo.

O tempo urge companheiros, o sectarismo é grande inimigo da luta de nossa classe. Aqueles que se colocam a tarefa de ser parte da formação da vanguarda de luta da classe operária têm cada vez mais responsabilidade, numa realidade nacional em que as contradições se aceleram de forma por demais visível. É necessário construir uma resposta; aqueles que continuarem passivos se cobrirão da vergonha tão merecida para os covardes.

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